Afinal, o que Lula estava querendo dizer?

Neste breve ensaio, em um esforço incansável, venho, novamente, tratar o tema das alianças políticas, tomando como ensejo o último pronunciamento público  de Luiz Inácio Lula da Silva, em 15/09/2016. Com a aproximação das eleições municipais, o assunto, obrigatoriamente, vem à tona, e à esquerda e à direita, vemos e ouvimos a negação do princípio da aliança política, principalmente quando se refere à coligação com o PMDB. Meu argumento aqui é muito simples: negar a coligação com o PMDB é sinal de ingenuidade política, de desonestidade intelectual ou da irresponsabilidade administrativa. Quem sabe tudo isso junto.

Foi mesmo uma pena Lula ter escorregado em um momento tão importante. Uma pena não tanto pela repercussão negativa junto aos funcionários públicos (já já isso passa, pois Lula é muito gigante para ter a sua imagem abalada por tão pouco), mas sim porque a principal liderança política do país perdeu uma boa oportunidade de colocar a situação em pratos limpos, explicando “timtim por timtim” o funcionamento do regime político brasileiro, do presidencialismo de coalizão, para ser mais específico. Lula é, sobretudo, um pedagogo e tenho a convicção de que ele seria capaz de dizer para o povo que a coligação política não é o nosso problema, mas sim a nossa solução, a única que temos. Ele falaria que sem coligação não tem nada, não tem orçamento pra bolsa família, pra crédito subsidiado, pra financiamento estudantil, pra luz elétrica no sertão, etc, etc, e tal

Já assisti o tal pronunciamento, pelo menos, umas quatro vezes e me parece que, a princípio, o objetivo de lula era, exatamente, falar sobre o presidencialismo de coalizão. Logo no início do discurso, Luiz Inácio, referindo-se aos procuradores da operação Lava Jato, diz: “eles são analfabetos políticos.  Não sabem o que é um governo de coalizão”. Essa frase serviria pra muita gente, pra muita gente mesmo. O mote do pronunciamento do Lula era esse; foi uma pena ele ter se perdido.

Já que Lula não disse claramente ao que veio, me dou o direito de falar por ele, de tatear pelas veredas das suas intenções. Afinal, estou aqui, tranquilão, no conforto da minha velha poltroninha encardida, sem o risco real de a Polícia Federal bater na minha porta daqui a pouco (escrevo esse texto às quatro da manhã). Vai ser mais fácil pra mim.

Lula queria falar que a premissa básica do presidencialismo de coalizão pode ser resumida na seguinte máxima: “ninguém governa sozinho”.

Vamos combinar, meus amigos, que essa premissa é fundamental para o pleno funcionamento da democracia. É positivo o fato de que ninguém governa sozinho, pois desde Aristóteles damos nome de “tirania” ao regime político que permite que alguém governe sozinho. Eu não quero viver sob uma tirania. Vocês querem?

Nesse sentido, se o ato de coligar é a premissa do nosso sistema político, ele pode ser pensado, pelo menos, de duas formas, as duas partindo do principio de que “ninguém governa sozinho”:

1) Se coligo sendo governo é porque preciso de apoio político para governar. Como não existe almoço de graça, em troca de apoio, os meus aliados vão querer participar do meu governo, seja influenciando no programa ou ocupando cargos, ou mesmo as duas coisas. No presidencialismo de coalizão, o diário oficial é uma combinação entre serviço de R.H e articulação política. O poder dos meus aliados em influenciar no meu governo é inversamente proporcional ao meu capital político: se estou fortalecido pela opinião pública ou por uma sólida base orgânica de apoio parlamentar, conseguirei negociar com eles em melhores condições. Do contrário, eles me levarão as cuecas. A vida, definitivamente, não é fácil.

2) Se coligo não sendo governo é porque estou disposto a dar o meu apoio político para o governo legitimamente eleito, desde que possa participar desse governo, ocupando cargos ou influenciando no programa. A situação, aqui, é inversa do que acontece no primeiro caso; se o governo com o qual me coligo estiver forte, vou me contentar com migalhas. Se estiver frágil, vou querer as tais cuecas.

Fora isso, resta a oposição, que também é parte importante no jogo democrático. Ser oposição significa não participar de projetos de poder, significa ver o seu programa fora do jogo, ao menos diretamente. Há quem queira ser eternamente oposição, pois é mais fácil ser pedra do que ser vidraça. Nesses, confio ainda menos do que confio no PMDB.

Uma breve visada na história política contemporânea do Brasil pela perspectiva do poder legislativo, deixa claro que desde a constituição de 1988, que instituiu o presidencialismo de Coalizão, o PMDB é a principal força política, sendo o partido que mais ocupa cargos eletivos nos poderes executivo e legislativo. As origens da hegemonia do PMDB no presidencialismo de coalizão dariam um estudo específico, que pretendo desenvolver em algum momento. Por ora, ficamos com esse dado tão inconveniente quanto incontestável. Somente os ingênuos, os desonestos e os irresponsáveis não aceitam isso.

Nesse sentido, no Brasil, para participar do governo, seja ele nos municípios, nos estados ou na união, a coligação com o PMDB é o requisito fundamental, pois sem ela qualquer governo é inviabilizado. Apenas resta saber se a coligação será feita como aliado ou como governo. Isso é uma das poucas coisas que as eleições majoritárias dizem: se o PMDB estará no poder como chefe de governo ou como coligado. No curto prazo, somente um novo acordo político, uma nova constituição, podem mudar essa situação.

Mas vejam bem, amigos: a não ser que passemos por uma experiência de guerra civil, esse novo acordo político, essa nova constituição, será de natureza derivada, ou seja, nascerá a partir da ação do poder estabelecido.

Sendo ainda mais claro: uma nova constituição, hoje, nasceria sob a coordenação política de homens como Michel Temer, Rodrigo Maia e Renan Calheiros. Tá afim de arriscar? Nessas circunstâncias, certamente, o novo acordo será ainda pior que esse que temos. Muita prudência na hora de criticar o presidencialismo de coalizão, meus amigos. Sem ele, não sobra nada, nem a chance de coligar com o PMDB. Um novo acordo, com a instituição do parlamentarismo, daria tudo ao PMDB, inclusive a oportunidade de governar sozinho. Aí, amores, a coligação não existiria mesmo, e não em virtude do nosso purismo ideológico e moralismo político, mas sim porque o próprio PMDB fecharia as portas.

Às vezes, o melhor a se fazer é manter as coisas como estão.

Concluindo: criminalizar as alianças políticas, ou mesmo negá-las, tratando-as como um desvio ético, significa inviabilizar governos. Em um país como o Brasil, onde tanta gente depende do Estado, onde o poder público precisa ser o agente promotor de um projeto civilizacional de distribuição de renda e inserção social, a inviabilização dos governos é o verdadeiro crime, pois sacrifica, justamente, os mais pobres.

Era isso que Luiz Inácio estava querendo dizer. Não conseguiu; os nervos não deixaram. Eu, se tivesse submetido às mesmas pressões, se tivesse assistindo minha família ser devassada em praça pública, teria escorregado muito mais.

Aqui, na minha poltroninha, é muito mais fácil limpar os pratos.

 

Discurso e cumplicidade

Peço que imagine dois cenários hipotéticos.

No primeiro, imagine a situação de um pai passa os primeiros vinte anos da vida do filho sem travar contato com ele. Um belo dia ele reaparece, risonho e faceiro, confiando no fato de que o aborto feminino é o único proibido. Ele tenta se aproximar do jovem e agir como um pai que nunca foi, seja aconselhando, seja censurando duramente. Essa atitude gera desconforto no filho, que não foi socializado com a figura paterna e que, portanto, não reconhece a legitimidade de sua fala. Abre-se espaço para o conflito.

No segundo, um sujeito aparece para dar uma palestra diante de um grupo seletíssimo de pesquisadores especializados no tema que pretende discutir. Ninguém nunca viu sua cara num ambiente em que todos se conhecem minimamente. Ninguém leu artigo publicado por ele. Ignoram seu nome e seus pressupostos. Alguém levanta e pergunta sobre sua formação e ele diz que concluiu seu doutorado no Jardim Escola Lobo Mau. O público, formado exclusivamente por doutores oriundos de universidades, questiona sua titulação, a despeito do fato de ele ter documentos comprobatórios, atitude impoluta e aquela arrogância estratégica que faz parte do ethos acadêmico. Abre-se espaço para o conflito.

Nas duas situações, o conteúdo da fala aparece completamente subordinado ao reconhecimento da audiência. Esses exemplos mostram que parte da eficácia dos discursos depende do fundamento institucional que assegura a autoridade de quem quer dizer. Essa ideia foi discutida pelo sociólogo Pierre Bourdieu no livro Ce que parler veut dire: L’economie des échanges linguistiques (1982). A ideia de Bourdieu é que a língua não pode ser tomada como um fenômeno isolado, como um sistema encerrado em si. Ela precisa ser necessariamente entendida a partir das condições sociais que asseguram seu uso. A eficácia do discurso depende não apenas de seu conteúdo, de sua matéria, mas de um certo equilíbrio que envolve o que se diz, quem diz e a quem se diz. Qualquer ruído, qualquer hiato, qualquer desequilíbrio pode prejudicar a comunicação ou mesmo invalidá-la. No caso dos exemplos que dei, o mérito da fala não foi sequer colocando em questão: o pai poderia ter dado conselhos ou censurado comportamentos de forma correta e ética, pensando no bem de seu filho, mas o filho, por não ter tido a experiência paterna ao longo de sua vida, desconsiderou os méritos do discurso; o conferencista, por sua vez, não teve seu título reconhecido publicamente pelos pares, e ainda que sua palestra fosse revolucionária, nada do que disse pareceria passível de chancela. O desacordo cria um muro entre os interlocutores. Há que existir, segundo Bourdieu, um fundamento institucional que assegure a eficácia das palavras.

Vejamos outro exemplo. Imagine o padre em uma missa. Crê-se que esse padre passou longos anos em um Seminário, que estudou grego, latim, teologia e tudo mais. Após muito trabalho e dedicação, fez seus votos e prometeu, dentre outras coisas, abster-se do sexo. Ele tem o direito de usar uma batina e é designado para uma paróquia. Lá ele professa a missa, realiza os sacramentos, ouve as confissões, celebra batismos e casamentos. Tudo de acordo com o rito pré-estabelecido. Esse padre, posicionado no altar, fala com aquela entonação de voz particular, segue a cartilha e até reza o Pai Nosso na língua de Cícero. Os devotos gostam dele, se sentem envolvidos pelo discurso e chegam a crer que há um deus que se faz presente naquele momento. Essa parece ser, obviamente, a situação de normalidade que se espera, mas há diversos fatores intervenientes, frutos da dinâmica da vida em sociedade, que podem derrubar o tênue equilíbrio. Imagine, sei lá, que o padre esquece a batina e celebra a missa de calça jeans, ou que os fiéis descobrem que ele desrespeitou o celibato ao transar com um frequentador da paróquia. Por usar drogas e estar completamente chapado na hora da missa, ele gagueja e esquece o Pai Nosso. Pensemos também, em caráter hipotético, que o padre esteja seguindo rigorosamente as prescrições, mas uma onda secularista tomou a paróquia e todos se perceberam mais céticos do que se suponham.

Há, portanto, três variáveis que podem ser vistas isoladamente ou pensadas em conjunto: 1) a instituição que assegura a autoridade da fala foi desrespeitada; 2) o conteúdo da fala não é adequado às diretrizes institucionais e à expectativa da audiência; 3) a audiência abandonou a cumplicidade que tinha com as instituições e/ou com o interlocutor. Esse debate sobre o que Bourdieu chamaria de “Linguagem autorizada” é excepcional para pensarmos o tamanho da crise política no Brasil.

Ainda que muitos brasileiros sejam cúmplices do golpe de Estado de 2016, boa parte perdeu a cumplicidade que mantinha com as instituições que autorizavam não apenas a fala, mas a própria legitimidade da figura do presidente. Todos concordávamos – pois assim fomos adestrados a pensar – que o voto direto assegura a emergência de um candidato ao Palácio do Planalto. Lá, em função de nossa concordância, ele poderia permanecer por exatos quatro anos, nem mais, nem menos, onde desempenharia as funções para as quais foi designado pela vontade soberana do povo brasileiro. Poderíamos discordar das políticas. Poderíamos criticar os discursos. Poderíamos fazer oposição duríssima. O discurso, no entanto, estaria autorizado pela legitimidade que a maioria do povo brasileiro assegurou a ele. O presidente ou a presidenta poderia, inclusive, falar de modo incompatível com a norma culta, dizer algumas besteiras ou gaguejar: questionar-se-ia não a autoridade, mas os méritos oratórios ou a inteligência de quem ocupava o cargo. Eu sempre achei que palavras belas podem esconder intenções horrorosas, e desconfio mais da retórica refinada de um engomadinho do que da fala truncada de uma pessoa simples. Para alguns, no entanto, falar corretamente é uma virtude, ainda que as ações sejam sofríveis, deletérias e interesseiras.

Acontece o golpe de Estado. Michel Temer, com suas mesóclises e citações em latim, assume o poder. O acordo institucional que assegurava a legitimidade da presidência da República, para muitos, foi rompido. Existe, portanto, um hiato entre o lugar que Temer ocupa e a possibilidade de ocupá-lo, já que quem o levou até lá foi um Congresso formado por aliados, e não o produto final das divergências que surgem das urnas. Para muitos, não importa o que o presidente fala ou mesmo a forma com que se expressa, pois por princípio não possui a legitimidade para falar: é como o pai ausente, o doutor formado no Jardim de Infância ou um padre que não frequentou o Seminário. A audiência deixou de ser cúmplice. Rompeu-se um acordo e não há meios para que esse acordo seja restabelecido sem que as instituições sejam mobilizadas para recuperar a Presidência da República como um espaço autorizado e pelo povo referendado. Nesse momento, apenas eleições direitas poderiam começar a superar essa crise.

O mesmo ocorre no âmbito da Justiça e do Poder Judiciário. Um juiz só se torna juiz porque concordamos com os ritos das instituições que os formam profissionalmente e que asseguram seu exercício profissional. É óbvio que o Estado dispõe de mecanismos coercitivos para fazer valer a vontade dos magistrados, mas a força das armas não assegura a concordância dos julgados. Esse é, aliás, um dos marcadores mais poderosos que distingue as democracias das ditaduras: nas democracias, a anuência vem pelo respeito à lógica republicana; nas ditaduras, pela imposição da força e pela violência física. Em um momento político de profunda desconfiança, o Judiciário, que deveria ser o poder que salvaguarda as instituições, perde o fundamento democrático que assegura sua razão de ser, construída pela lógica de que a Justiça é cega, imparcial e que “nunca falha”. Quando os cidadãos perdem a sua cumplicidade com o Estado democrático de Direito, ou vivemos uma ditadura ou pavimentamos o caminho para sua consolidação.

Da forma que vejo, esse é um dos sintomas mais perversos e pouco percebidos da profunda crise política que vivemos. Não há fala plenamente autorizada. Não há discurso pleno de valor de verdade. Os interlocutores perderam a cumplicidade estratégica. Não há legitimidade. Obviamente, muitos permanecem cordatos e apoiando o golpe de Estado, mas não é esse tipo de exceção que caracteriza uma democracia sadia. Da mesma forma, se não há legitimidade para reconhecer o erro, também não há como legitimar eventuais ações de “reconciliação” protagonizadas por quem desencadeou a crise. É de se esperar que um doente desconfie da cura oferecida por quem desenvolveu a doença. Como o discurso mais eloquente é o das urnas, não há como imaginar que exista outro caminho que não passe por eleições direitas, que talvez seja o único meio de iniciar a reconstrução das instituições. Hoje, somos todos filhos de pais ausentes, alunos de doutores sem diploma, crentes de uma paróquia sem padre, eleitores de um Brasil sem presidente. Só com o respeito ao voto livre, direto e soberano voltaremos a ouvir. Só assim seremos cúmplices novamente.

“Me digam qual é o golpe? Eu só quero governar” (TEMER, Michel)

Pois eu digo.

Verdade seja dita, há várias formas de dizer. Livros, artigos, reportagens e entrevistas, no Brasil e no exterior, já foram publicados sustentando a tese do golpe. Mas eu vou usar como base a frase que intitula essa postagem, atribuída ao próprio presidente na entrevista publicada no jornal O Globo em 11 de setembro de 2016. Ela pode ser lida na íntegra clicando aqui. O diálogo completo é um prato cheio, mas vou me fiar apenas nessas duas sentenças. Eventualmente vou recorrer a outros trechos da mesma entrevista, mas só para relacioná-los a argumentos já discutidos.

As duas sentenças estão visceralmente unidas. Isso acontece não apenas porque foram ditas uma após a outra, mas porque há uma complementaridade de sentido. A primeira pode ser caracterizada como uma pergunta retórica, já que Temer defende de modo dissimulado que não houve um golpe de Estado: “Me digam qual é o golpe?”. Em outras palavras, não se trata de uma pergunta a ser respondida, feita na expectativa de que seu interlocutor explicasse os sentidos de golpe. De acordo com a reportagem, tudo indica que ele estava furioso, e batia na mesa seguidas vezes após subir o tom ao mesmo tempo em que criticava a irascibilidade que teria tomado conta do Brasil. É com esse estado de espírito que ele lança o inquérito. A interrogação, na verdade, pressupõe uma negativa. O sentido que almejava com a sentença poderia ter sido formulado através da frase “Não há golpe”, mas ele pergunta, indignado, “qual é o golpe” como se fosse um sujeito perdido que não sabe exatamente onde encontrar aquilo que muitos denunciam estar diante de seu nariz.

Logo após sugerir que não há golpe, o golpista afirma: “Eu só quero governar”. O uso do advérbio parece transformar a ideia de governar em algo simples, factível e exequível caso goze de liberdade para isso. Temer busca atenuar as dificuldades imanentes a todo ato de governo. Dizer “eu só quero governar” não equivale, por exemplo, ao desejo de uma pessoa que, em meio ao barulho inadequado em uma biblioteca, bate a mão na mesa e brada “Eu só quero estudar”, ou de uma pessoa insone que, atormentada por uma série de problemas, diz “eu só quero dormir”. Estudar e dormir são ações plausíveis, acessíveis, em certo sentido corriqueiras e necessárias. Governar, não. Governar é um ato excepcional, disponível a poucas pessoas e que precisa ser referendado pela legitimidade e legalidade que outorga ao governante o poder de desempenhar essa ação. Por isso, quando as pessoas denunciam o golpe, o exercício de governo se mostra comprometido. Para recuperá-lo, é preciso desestruturar a ideia de que houve um golpe de Estado e que o movimento que permitiu a ascensão ao poder é plenamente legítimo. Por isso Temer pergunta “qual é o golpe?”, numa tentativa frustrada de defender a existência de condições de governabilidade que ele parece não ter. Quando ele diz “eu só quero governar”, o sentido é equivale à afirmação “não estou conseguindo governar”, já que não seria razoável expressar um desejo caso ele estivesse vigente. Um insone não pede para dormir e um estudante não exige que se faça silêncio em um ambiente previamente silencioso.

A correlação, nesse sentido, envolve dois cenários possíveis e interdependentes: 1) se há golpe, não há governabilidade; 2) se não há golpe, há governabilidade. Em outras palavras, golpe e governabilidade alimentam uma oposição, como se a existência de uma implicasse a inexistência de outra. O plano semântico faz óbvia alusão ao ritmo da política, já que no primeiro presume-se uma conjuntura de instabilidade jurídica onde a democracia foi solapada, ao passo que no segundo há o respeito à legitimidade e legalidade democráticas que deveria reger a vida republicana. Portanto, como mostra o esquema abaixo, a sentença de Temer acaba ratificando um cenário em que essas disposições cognatas se encontram em conflito.

esquema

Em termos políticos, caso tomemos a rotina desejável que caracteriza uma República democrática, a possibilidade de governo se oferece em função do voto popular, livre e soberano. Partindo do pressuposto de que Presidência e a Vice-Presidência da República são funções exercidas a partir de um acordo prévio, formalizado e viabilizado a partir da construção de uma chapa/coligação que se define por um projeto político em comum, as ações de Michel Temer e Dilma Rousseff deveriam possuir, por princípio, algum tipo de afinidade ou organicidade mínimas. Essa questão se torna ainda mais forte quando se nota que o impeachment foi deflagrado por um ato do governo, e não por um problema pessoal, como o caso de corrupção que levou à queda o presidente Fernando Collor. Nesse sentido, se a presidenta da República é destituída de sua função, era de se esperar que o vice-presidente também estivesse suscetível à mesma penalidade: foram eleitos juntos e nenhum deles se afastou do cargo nesse período. Por essa razão, há uma contradição ainda maior no desejo de governar e uma dificuldade óbvia de criar condições políticas para isso: falta legitimidade e, para muitos, legalidade.

Dilma Rousseff foi eleita pelo voto popular, e disso ninguém discorda. Sua ascensão ao poder, como é de se supor, não se deu através de um golpe de Estado. Apesar disso, graças à ação de um parlamento hostil e antidemocrático, não conseguiu governar. Temer foi alçado à condição de presidente da República após a destituição de Dilma Rousseff e levou ao núcleo de seu governo os personagens e partidos que perderam nas últimas eleições e que exerceram protagonismo no movimento político que culminou com o golpe. O próprio Michel Temer participou ativamente desse processo. Cumpre lembrar alguns acontecimentos tão patéticos quanto emblemáticos: em dezembro de 2015, torna-se pública a célebre cartinha que ele supostamente teria enviado para a Presidenta e que se dizia ressentido por ser um “vice decorativo”. Essa ação marca a primeira tentativa de dissociar-se do governo para não assumir a responsabilidade que a coligação e a própria Constituição lhe atribuíam. Há exatos cinco meses, no dia 11 de abril, também fomos surpreendidos com um suposto áudio de WhatsApp que foi acidentalmente vazado, no qual ele “ensaiava” seu discurso em caso de aprovação do impeachment de Dilma da Câmara. A esses dois eventos poderiam ser adidas a série de reuniões às escuras que teve com parlamentares, ministros do STF, empresários, o documento “Ponte para o Futuro” e declarações polêmicas. Por um lado, Temer emerge à vice-presidência através de uma chapa que forma com Dilma; por outro lado, emerge à presidência após um esforço atuante de dissociação da chapa que o elegeu. Se ignorássemos toda a conjuntura e convergíssemos nosso foco exclusivamente para sua figura patética, teríamos elementos suficientes para interpretar o processo como um golpe de Estado.

A negação de tudo isso através da sentença “Me digam qual é o golpe?”, seguida pela manifestação do desejo de governar, indica claramente a condição de desconforto produzido por um cenário de quebra da ordem institucional. Estivesse a República “nos trilhos”, seguindo sua rotina sem o assaque de grupos interessados em assumir o poder fora da via eleitoral, a governabilidade estaria, por princípio, assegurada. Como não foi isso que acontece, há golpe, e o diagnóstico que o presidente golpista faz e que deixa entrever a partir dessas duas sentenças exibe as contradições e a complexidade desse cenário instaurado à revelia da decisão soberana no povo brasileiro. Em outras palavras, curto e grosso: Temer não consegue governar por causa do golpe que ele nega.

O mais importante, no entanto, é o sintoma de seu destempero e aquilo que enseja seu discurso. Se Dilma teve sua capacidade de governar comprometida pela ação da parte do Estado que visava sua destituição, Temer está profundamente incomodado – ou mesmo aturdido – pelas manifestações populares que aconteceram ao longo das últimas semanas e que tem aumentado gradativamente. Para nós, que não admitimos golpe de Estado e que defendemos eleições diretas como único meio possível para a retomada da democracia, essa singela frase é uma convocatória para que permaneçamos na boa luta, para que insistamos na crítica dura e presente, sem recuar um milímetro e avançando a passos largos.

Há golpe, Temer. E, se depender de muitos brasileiros, você de fato não irá governar.

Entre o inquisidor e o pedagogo

No início da crise que culminou com o golpe de Estado, questionei que talvez não fosse o momento ideal para criticar os erros e combater o PT. O partido passou por um longo período de fragilização. As esquerdas, convenhamos, não tiverem qualquer protagonismo nesse processo, onde imperou a pauta moralista da corrupção entoada por pessoas conhecidas tanto pela improbidade quanto pelo conservadorismo. Foram os adversários tradicionais das esquerdas que assumiram a voz nesse processo, devidamente representados pelo Congresso Nacional mais conservador que elegemos nas últimas décadas. Diante desse cenário, pareceu-me – e até o momento não fui capaz de mudar de opinião – que atacar o Partido dos Trabalhadores e suas principais lideranças era um erro estratégico. Agora, deflagrado o golpe, diante de um cenário em que as esquerdas estão em migalhas, o momento chegou.

Há vários caminhos para a crítica. É possível, por exemplo, assumir a postura do inquisidor, que aponta o dedo e constrange para decretar a condenação. Ele tem diante de si o acusado de heresia, geralmente um sujeito pobre que está previamente condenado pelo Tribunal do Santo Ofício. O julgamento é pessoal, a relação é assimétrica, os crimes são imprescritíveis e os pecados não podem ser remidos. Mas é possível agir diferente, tal como o pedagogo, que assume uma postura didática e vai um pouco além do denuncismo das responsabilidades individuais. Ele tenta analisar as causas do problema, identificar os fundamentos da ignorância e, no lugar de atribuir uma sentença, lança uma solução para que aquela situação seja superada.  Em nenhum dos casos há abono dos erros: eles não deixam de existir e permanecem objeto da mais rígida atenção. No entanto, o inquisidor, que é por excelência autoritário, tem por objetivo destruir o culpado e torná-lo uma medida exemplar para que outras pessoas sintam medo de errar como ele; o pedagogo, a seu turno, utiliza o erro como oportunidade de aprendizado, se esforçando para que o sujeito não mais incorra nesse equívoco e que os demais, acompanhando o processo, compreendam que é sempre possível fazer diferente.

Há, obviamente, diversas variáveis que concorrem para a escolha de uma ou outra posição. Há pessoas vocacionadas para assumirem a postura do inquisidor. Aprenderam desde a mais tenra idade que são destinadas à perfeição. São impolutas, sadias e assumem uma disposição condenatória sem culpa ou remorso. Estão sempre com o dedo em riste, previamente apontado à espera do culpado, cientes de que o lugar que ocupam é por excelência correto. São incapazes de fazer autocrítica e flertam com o fascismo dia sim e outro também. Em uma palavra, curto e grosso: são conversadoras. Há, porém, aqueles que consideram que somos todos incompletos e suscetíveis ao erro. Quem pensa como pedagogo entende que, por princípio, o erro não nasce e prospera exatamente de nossos vícios e virtudes, mas de razões estruturais que nos levam a pensar como pensamos e a agir como agimos. Isso não significa dizer, por suposto, que não haja espaço para a agência e que nossas responsabilidades devem ser diluídas até seu total apagamento, mas que para superar o erro é preciso, também, superar as estruturas viciadas que levam à sua consecução. Resumindo, trata-se de uma postura progressista.

Agora, que é chegado o momento oportuno para a crítica, estaremos diante de uma dupla possibilidade: revolver os escombros para entender a detonação ou entender a detonação para edificar um novo edifício. Entre o inquisidor e o pedagogo, é o momento de reconhecermos as virtudes dos governos do PT para assegurar a ampliação das conquistas e dos direitos, bem como analisar seus vícios para que possamos não mais sucumbir diante de um assalto orquestrado lenta e gradualmente por quem não tem qualquer compromisso com as necessidades dos trabalhadores. Não há qualquer vislumbre de um projeto de esquerda capaz de combater efetivamente os que assacaram o poder quando o tom do discurso é inquisitorial: ele segrega, afasta e não é propositivo. É importante que, de forma serena, assumamos o discurso pedagógico que, sem ser permissivo, olha para o futuro e para as fragilidades da democracia com vistas a torná-la mais forte e mais popular. Pois se o inquisidor é como um velho amargurado, que julga ter vivido tudo e que só tem a ensinar, o pedagogo é como um jovem sonhador, que reconhece sua insciência e que busca aprender. Agora, olhando adiante, pensando alhures, a escolha por uma ou outra postura, resume a disposição de quem busca construir ou acentuar a destruição, e no campo progressista, quando há o compromisso de governar e buscar mudanças efetivas, é bom que se conheça, pela experiência petista, o lodaçal em que estaremos pisando para que novos partidos façam tanto ou mais que o PT sem incorrer em seus erros e sucumbir diante das forças do atrasado que estão sempre à espreita.

Questão de sobrevivência

Faz alguns anos que encontrei um livrinho intitulado Lula sem censura em um sebo em Campo Grande. Comprei por um preço bem baratinho e li no mesmo dia. A linguagem é bem informal, como deveria ser, pois é a compilação de três horas de gravação de uma conversa entre Luiz Inácio da Silva e Altino Dantas Junior. Imagino que não seja tarefa simples encontrá-lo, mas sua leitura seria bastante oportuna, especialmente nesse momento de crise em que as esquerdas fazem (ou deveriam fazer!) a autocrítica necessária para reconhecer de que maneira permitimos a derrota política que culminou no golpe de Estado de 2016.

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Como sói acontecer, em reuniões e diálogos informais, somos levados a fazer a célebre “análise de conjuntura”. Nos últimos anos, parte significativa das análises de conjuntura buscam refletir sobre “os erros do PT”, e uma frase recorrente é que a mobilidade social no Brasil se deu exclusivamente através da “inclusão pelo consumo”, o que para as esquerdas seria muito pouco, especialmente por se tratar de uma das principais engrenagens do sistema capitalista e o sintoma mais representativo do American Way of Life. Mais do que isso, teria formado um eleitorado conservador extremamente apegado a um pensamento egoísta e descompromissado com os vínculos de solidariedade e apoio mútuo.

Para alguém identificado com as esquerdas, é muito difícil discordar dessas premissas. O consumo, tanto dos mais pobres quanto dos mais ricos, cresceu imensamente ao longo dos governos do PT. Os programas sociais implementados por Lula e recrudescidos por Dilma reduziram de uma forma inédita a pobreza e a vulnerabilidade dos mais pobres. Ao mesmo tempo, os ricos enriqueceram ainda mais, aumentando os índices de desigualdade social. Essa situação produziu um cenário esquizofrênico: por um lado, parte das esquerdas se posicionou de modo absolutamente crítico, já que tais medidas não apresentavam qualquer ruptura com o status quo; por outro lado, parte das direitas se mostrou visceralmente incomodada por razões diversas, incluindo o desconforto de ter que viajar de avião com pessoas simples e por ter que pagar direitos trabalhistas a empregados(as) domésticos(as). Talvez não tenham sido os governos que muitos queriam, mas decerto foram governos de que os pobres precisavam.

Quando a gente volta ao livrinho que mencionei, percebe que esse projeto de “inclusão pelo consumo” tem muito a ver com a biografia de Luiz Inácio e que serviu de força motriz para a construção do Partido dos Trabalhadores. A vida de Lula foi semelhante à de milhões de nordestinos que emigraram para o Sudeste em busca de emprego e para fugir da fome. A mãe de Lula chega a Santos e descobre que seu marido, que tinha vindo algum tempo antes, tinha outra família. Ele era analfabeto e trabalhava como carregador. Os maus tratos começaram e ela decidiu se mudar com os oito filhos. Os bens materiais da mudança se resumiam a uma tina, uma faca e uma lata de leite Mococa onde se guardava pão. Tempos depois, saíram de Santos e foram pra São Paulo. Na capital, Lula tirou o diploma do curso primário trabalhando como ajudante de tintureiro. Em seguida, passou a trabalhar numa fábrica como ajudante de escritório. Ainda era uma criança. A miséria era gigantesca. Moravam num quarto e cozinha aos fundos de um bar. O banheiro era compartilhado com os clientes do estabelecimento. Nesse quarto e sala moravam 16 pessoas: os oito irmãos, a mãe e sete primos que também vieram a São Paulo para tentar melhorar de vida. Lula diz que “parecia um engradado de galinha que esses caminhões carregam por aí”. Em seguida, passou a trabalhar como engraxate. Para cozinhar, a família usava uma lata com serragem. Tempos depois, conseguiram comprar um fogão a gás e se mudaram para um quarto e sala onde o banheiro era privativo. Nesse momento já foi necessário chamar um caminhão de mudança. O ex-presidente lembra que, nesse dia, o irmão mais velho fez questão de colocar o fogão em cima, que era para todo mundo ver que tinham um fogão. Isso tudo aconteceu até o ano de 1959.

Em 1960, quando completou 16 anos, Lula passou a estudar no SENAI. O sonho de sua mãe era que ele se formasse torneiro mecânico, ainda que seu projeto pessoal fosse ser caminhoneiro. O SENAI ficava a mais ou menos 7 quilômetros de onde moravam e a mãe de Lula ia quase todo dia até lá, a pé, para ver se tinha vaga. O filho caçula era a esperança de Dona Lindu. Finalmente, entrou em uma fábrica e consegui ser mandado pra estudar e se formar na profissão sonhada por sua mãe. O dinheiro que recebia, dava todo a ela. Conseguiram se mudar pra uma casa maior. Em meio às reviravoltas, ficou desempregado em 1965. Foi levado a trabalhar em uma firma que era bem longe de sua casa. Muitas vezes, tinha que andar a pé um trajeto imenso porque não tinha dinheiro para o ônibus. Vez ou outra, na volta do trabalho, via o ônibus passar por ele. Lula sentava, chorava e amaldiçoava o dia em que tinha nascido. Aos 29 anos casou e ficou viúvo dois anos depois. Pouco depois ingressou no movimento sindical e deu início à vida política que conhecemos bem.

Histórias de superação pessoal são bem recebidas pela direita e bastante repudiadas pela esquerda. Para os primeiros, são exemplos do que todos poderiam ser caso se esforçassem; para os segundos, são situações particulares que dissimulam o fato de que nem todos terão o mesmo sucesso, independentemente dos esforços. Eu fico, obviamente, com a segunda opção. Mais do que isso, é de se questionar que alguns precisem sofrer tanto para alcançar algum tipo de privilégio que muitos já dispõem ao nascer. Mas não é apenas isso. A biografia de Lula não é um caso particular. O próprio Luiz Inácio começa o livro dizendo: “Falar de mim é a mesma coisa que falar sobre, quem sabe, alguns milhões de brasileiros, que saíram do nordeste ou saíram do campo, para vir arriscar a sorte na cidade grande”. Cumpre lembrar que o mesmo se aplica a milhões de pessoas nascidas nos quatro cantos do país que, quando não morreram de fome, sobreviveram de modo miserável e tiveram uma vida desgraçada porque não tinham acesso ao mínimo necessário para se sentirem dignos.

É muito importante criticar os erros do PT e, no plano das análises, ser rigoroso e atento. No entanto, é preciso também levar em consideração a vida das milhões de pessoas pobres que abandonaram o estado de vulnerabilidade que vivam em função do maior projeto de inclusão social que esse país conheceu. É preciso ter clareza que a esquerda que sonhamos não é necessariamente a esquerda de que os pobres precisam. É preciso ter humanidade pra reconhecer que criticar a inclusão pelo consumo é tarefa simples para quem nasceu em berço esplêndido e nunca viu faltar pão sobre a mesa. É preciso perceber que muitos que criticam a inclusão pelo consumo passaram a vida em escolas caras e andando de carro, sem nunca terem chorado por não conseguir pagar um ônibus pra voltar pra casa após um dia cansativo de trabalho. Convido a falar em crítica ao capitalismo diante de pessoas que dormem amontoadas em um quarto e sala, que dividem o banheiro com os frequentadores de um botequim, que precisam trabalhar aos doze anos de idade e que veem pessoas queridas morrendo de fome ou por falta de acesso a cuidados básicos. Muitos que criticam Lula sonhavam, quando crianças, em ser tornarem astronautas, ao passo que ele só desejava dirigir caminhões, o que mostra que até nossos sonhos são mais simples quando se é pobre: não dá pra alcançar a lua quando se está a pé.

Ainda mais trágico é perceber que, em muitos casos, tanto a esquerda quanto a direita não possuem sensibilidade suficiente para perceber que revolução não é um fato definitivo, mas uma série de conquistas cumulativas que começam, necessariamente, com a erradicação da fome e da miséria. Para alguém que luta pela sobrevivência não é possível lutar pela revolução. Milhares de famílias passaram a ter acesso à energia elétrica em suas casas. Elas podem ter uma geladeira e uma televisão. Milhares de brasileiros e brasileiras pobres conseguiram ingressar e concluir o ensino superior, coisa que antes seria impossível. Milhares de pessoas conseguiram ter acesso à casa própria. Hoje, o Brasil não está mais no mapa da fome. Tudo isso está ameaçado por um governo ilegal e ilegítimo. Para alguns isso não é importante, mas eles não saíram de Caetés e não sabem o que uma sopa rala de feijão pode representar para a vida de alguém. Sensibilidade é questão de sobrevivência, tanto para os pobres quanto para as esquerdas.

 

No dia seguinte

No dia seguinte, Pedro acordou num sobressalto assim que o despertador tocou. Permaneceu sentando em sua cama, ergueu os braços para se espreguiçar e finalmente levantou. Foi direto ao banheiro. Lavou o rosto, escovou os dentes e penteou o cabelo. Em seguida, foi à cozinha e preparou uma xícara de café bem forte, que sorveu delicadamente com seu tradicional pão com manteiga. Pedro retirou do varal o macacão azul que secou durante o final de semana e o colocou em sua mochila junto aos demais pertences. Pôs a carteira no bolso de trás da calça jeans, o celular no bolso esquerdo, acendeu um cigarro e partiu para o trabalho num trem lotado da Central do Brasil.

No dia seguinte, Julieta acordou devagar, vagarosamente, com os olhos marejados de sono. Mudou a roupa e foi fazer os exercícios regulares que lhe asseguram uma excelente forma física. Na volta, tomou um belo café da manhã, com direito a frutas, iogurte que regula as funções intestinais e granola, muita granola. Tirou as roupas da ginástica, tomou um rápido banho quente e colocou um finíssimo terno preto que se ajustava perfeitamente a seu corpo. Dirigiu-se à garagem, ligou seu carro, viu o portão erguer-se ao comando do controle remoto e dirigiu alguns quilômetros para mais um dia de trabalho em seu escritório de advocacia.

No dia seguinte, Sophia viu sua mãe e seu pai acordarem-na carinhosamente, cada um beijando um lado de seu rosto. Abriu os olhos com alguma relutância, evitando que a luz do quarto ferisse sua retina. Foi levada pela mão para tomar banho e fazer a toalete matinal. Assim que saiu, vestiu o uniforme da escola e foi tomar seu café da manhã. Comeu um pão com queijo e um copo de achocolatado enquanto assistia o desenho animado que passava na televisão. Não tardou para que o ônibus do colégio buzinasse diante de sua casa e exigisse alguma pressa. Saiu atropelando-se com a mochila nas costas e a lancheira à tiracolo para mais um dia de aula.

No dia seguinte, tudo parece absolutamente igual ao dia anterior. O despertador toca e a gente respeita de forma dócil e lisonjeira o dia que ele anuncia. Sem se dar conta, a gente julga que tudo permanece em seu mais rigoroso lugar, ainda que o mundo esteja pelo avesso. Todos os dias a gente acorda sem perceber que a vida é aquilo que acontece no intervalo entre os sonos. Todos os dias, seguimos a rotina avassaladora que nos conforta na aparência. Mas pode ser que aos poucos, quase sem perceber, venha um novo dia e as pessoas acordem um bocado diferentes. Pode acontecer com Pedro, depois com Julieta e, num futuro próximo, com Sophia também. E aí, nesse dia, todos estarão exaustos de tanto dormir. Pode ser que venha o dia em que faremos da realidade o mais doce dos nossos sonhos, e só então dormiremos tranquilos. Pode ser que nada disso aconteça. Pode ser que tudo permaneça rigorosamente como está. No entanto, para o bem ou para o mal, até que a morte nos leve, sempre haverá o dia seguinte.

Uma ética suburbana

Há um famoso provérbio árabe que diz que “os homens se parecem mais com sua época do que com seus pais”. Mas somos filhos do espaço tanto quanto do nosso tempo. Eu nasci e fui criado no subúrbio do Rio de Janeiro, em Madureira, na década de 1980. Cada vez mais tenho clareza do quanto sou diferente do camaradinha que nasceu na Zona Sul no mesmo período, não tanto pela diferença material que nos separa, mas pelas formas de sociabilidade que se constroem a partir dela. Há uma verdadeira “ética suburbana” à qual essas pessoas não tiveram acesso. Para o bem ou para o mal, eles aprenderam a viver de modo bem diferente. Isso fica claro na mixórdia de fatos cotidianos ou nas páginas do noticiário político.

Veja o caso do futebol, por exemplo. Ontem, quando assistia ao jogo da seleção brasileira de futebol masculino, fiquei lembrando os rachões que jogava descalço na Rua Alcina ou nos “Bancários”, um conjunto habitacional que ficava ao fim da minha rua. A pelada era coisa séria, regida por condutas muito particulares. Como não tinha juiz, tudo se resolvia ali, na hora. É claro que a bola pertencia a alguém, mas não tinha como ser “dono da bola”. Se quisesse parar de jogar por alguma razão, o melhor a ser feito era deixar a galera continuar e ir embora, ainda que sob o risco de nunca mais encontrá-la. Falta não existia, mas tinha sempre alguém que dava uma entrada mais dura, só pra provocar. E, quando a gente caía e fazia aquela inevitável cara de dor, o sujeito perguntava: “Machucou?”. Se você dissesse que “sim, machucou sim”, era questão de segundos pra levar uma porrada ainda maior e ser novamente questionado: “Machucou? Fez dodói?”. O correto, nesse caso, era dizer “não, tá tranquilo”. O passo seguinte era devolver a porrada, de preferência com uma intensidade ainda maior, e lançar a mesma pergunta. E assim se resolvia. Já tive hematomas de todas as formas e tamanhos. Um deles parecia até o rosto de Jesus Cristo, desses que aparecem em azulejos de banheiro e pães mofados, mas nunca disse que doeu. Não raro a briga se generalizava e o jogo acabava, mas no dia seguinte tava todo mundo lá, pra cair na porrada novamente. Um sujeito como Neymar, que cai toda hora e faz estardalhaço por causa de um empurrãozinho, teria dificuldades indizíveis.

A lógica do subúrbio era, obviamente, extremamente masculina e masculinizante. Não precisava de muito para ser chamado de “viadinho”, o que contraria uma pauta progressista importantíssima dos dias de hoje. Mas como nem tudo na vida é 100% ruim, havia um aspecto bacana no entremeio dessa coerção heteronormativa: bater em mulher era objeto de intenso repúdio. Não se podia bater em mulher. O camarada que ficasse conhecido por bater em mulher seria obrigado a prestar conta de sua covardia diante daqueles que lhe fizessem frente. Se corresse do embate ou evitasse o debate, seria execrado e certamente levaria uma surra na primeira oportunidade. Era um tipo reles e vil, tratado com as exéquias de um pária, uma nulidade, um fracassado. Era o tipo de homem que teria menos moral que um caçador de galinhas. Não serviria pra ser síndico de prédio, chefe da boca ou presidente da associação de moradores, muito menos prefeito da cidade.

Apesar das rivalidades e da rígida observância das condutas que a molecada exigia de si, o convívio no subúrbio gozava de um sentido de solidariedade muito intenso. A gente se batia, se digladiava, discutia, mas tava todo mundo por ali, na mesma. Quando fazíamos alguma merda, a consequência tinha que ser compartilhada por todos. Não existia “delação premiada” ou coisa do tipo. Aliás, pessoas que fizessem isso uma única vez seriam execradas e alijadas de absolutamente tudo para todo o sempre. Eles ficariam com a pecha de X-9, algo tão ruim quanto bater em mulher e não ter coragem de encarar seus adversários de frente. Não significa dizer, é claro, que éramos partidários dos erros ou que acobertávamos ações ruins, mas a ideia de delatar era muito sombria: quebrava um vínculo de confiança que deveria ser, por princípio, inquebrantável. Vou dar um exemplo.

Houve um tempo em que o objetivo de nossas vidas era conseguir dinheiro pra comprar cavaca e guaraná Tobi. Para quem não conhece, cavaca é uma espécie de biscoito seco e arrendado, com confeitos em uma das faces, vendido em padarias. O guaraná Tobi era o refrigerante mais barato que tinha, mas também o mais gaseificado. Era vendido em garrafas de cerveja e, não raro, coexistiam o rótulo do produto com o nome “Brahma” entalhado no vidro. Também tínhamos que comprar pipa no Mercadão de Madureira. Não apenas pipa, mas linha 10 e cola de madeira pra fazer o cerol. O vidro não era necessário, pois usávamos uma lâmpada fluorescente arrancada de algum lugar. Pra isso era preciso conseguir dinheiro, e nem sempre era fácil juntar jornal velho pra vender no abatedouro. E a necessidade, já disseram, é a mãe da sabedoria. Juntávamos algumas pedras pequenas e aguardávamos alguém estacionar seus carros nas proximidades. A preferência era por Monza. Quando o motorista ia embora, enchíamos o cano de descarga com as pedras e aguardávamos ele voltar. Assim que chegava, dizíamos que passaram uns moleques e, de sacanagem, entupiram o carro. O sujeito era obrigado a deitar no chão, bater no cano de baixo pra cima até que as pedras saíssem. Em geral, ficavam agradecidos e davam um dinheirinho pra expressar a gratidão. Alguns sovinas agradeciam e iam embora. Deu-se, porém, que um dia, um camarada suspeitou do truque e perguntou, de modo bastante austero, se não tínhamos sido nós. Dissemos que não e ainda externamos indignação pela suposta injustiça, mas ele pegou Renan pelo braço, que era o elo mais fraco da corrente: “Quem foi? Quem foi? Foi você?”, e Renan, um golpistinha safado, pra se livrar do problema, acusou os demais: “Foram eles, Tio! Foram eles!”. Corremos um bocado e nunca mais vimos o sujeito, mas Renan, obviamente, passou a ficar recluso em seu apartamento, e não raro levava uns pescotapas quando saía sem a presença de seus pais. A gente aprendia cedo que não dava pra confiar em golpista.

Meu filho não vai passar pelas mesmas experiências. Os tempos são outros e já não moro mais em Madureira. Isso não significa, porém, que não vou me esforçar pra explicar a ele, direitinho, o que há de bom e ruim na ética suburbana. Vou dizer, por exemplo, que espancador de mulheres não merece respeito. Pra isso não há julgamento porque não tem como ser inocente. Vou dizer também que é preciso assumir as responsabilidades de seus atos, e que fugir ao debate é sempre muito feio. Há que encarar o adversário de frente, sem se amparar na barra da saia da mãe ou em uma lei idiota. Agir corretamente é um imperativo, mas delação não vale prêmio. Delatar alguém pra buscar benefícios pessoais é medíocre e covarde. E nada de golpe. É preciso confiar no ser humano, mas um golpista não é digno de crédito: ele não vale o ar que respira, a cavaca que come, o guaraná que bebe, a pipa que solta. Golpistas, X-9s e espancadores de mulheres existem para serem combatidos, e não eleitos. Nosso caráter é, em parte, forjado pela forma com que nos diferenciados e lutamos contra eles. A ética suburbana, enfim, tem muito a ensinar àqueles que ainda hoje andam com a bunda polvilhada de talco perfumado.

O lugar da catarse no “Fora, Temer!”

Catarse, substantivo feminino oriundo do grego kátharsis, tem pelo menos quatro acepções possíveis. De modo geral, significa “purgação”, “purificação”, “limpeza”. No vocabulário médico, indica a evacuação, natural ou provocada, por qualquer via. Para a psicologia, associa-se a um efeito salutar provocado pela conscientização de uma lembrança fortemente emocional e/ou traumatizante que estava, até então, reprimida. No teatro, a catarse se refere a um efeito purificador típico da tragédia clássica. Aristóteles bem observou que o efeito catártico traz à tona, em situações dramáticas de extrema intensidade e violência, sentimentos de terror e piedade nos espectadores, provocando alívio ou purgação desses sentidos. Quem explica isso é Aurélio, o pai de todos nós.

Esses quatro cenários possíveis mostram que a catarse só nasce, prospera e funciona em situações de crise. Não há como purificar o que já é puro. Não faz sentido evacuar o que é benéfico. Não seria possível sublimar um trauma que não tivesse sido internalizado. Tampouco, no palco do teatro, a plateia gozaria com a purgação de um sentido que não fosse humano e socialmente partilhado. A catarse é como respirar fundo após uma situação sufocante, é se embriagar pra aliviar o estresse, é urinar após horas de bexiga cheia, é mandar à merda o sujeito que te azucrina. Tudo isso é catártico, mas é bom que se diga que a catarse não possui uma finalidade em si. Ela não existe por si só. De certa forma, ela é parasitária e em muito lembra o efeito das drogas: em um momento, o prazer do efeito narcótico; logo depois, a depressão e a sensação de culpa advinda do uso. E, se insistimos no uso para manter ad infinitum a sensação de prazer, já não experimentamos a realidade e a própria catarse deixa de existir. Um otimista diria que a catarse é redentora e necessária. Um pessimista diria que é ilusória e intransigente. Talvez, entre Cila e Caribde, entre a cruz e a caldeirinha, haja um meio termo.

É o caso do “Fora Temer”. Nada como uma metáfora para explicar de forma bem didática: vale aqui uma analogia com o sentido médico do termo. Façamos de conta, apenas pra fins expositivos, que o presidente interino é o excremento. Nesse caso, a catarse busca ser o purgante que traria algum alívio ao desconforto estomacal que ele gera. A crise, portanto, é provocada pela obliteração das vias intestinais que não permitem evacuar o que deve ser evacuado, e a catarse é o grito desesperado para que isso aconteça: “Fora, Temer!”. E, como ninguém gosta de sofrer sozinho, é desejável que haja espaço para que todos travem conhecimento da prisão de ventre que tanto angustia. Não sem motivo os Jogos Olímpicos viraram uma imensa latrina, pois dão visibilidade a esse mal súbito que muitos sentem após a deflagração do golpe de Estado que vivemos.

A bunda do Cisão se encaixa perfeitamente nessa analogia. Eu escrevi sobre ela há alguns dias, também por catarse. Ontem, Rodrigo Perez retomou o debate, de forma não tão catártica assim. Não tenho como negar que os dizeres que pedem a saída do presidente intestino, devidamente grafados naquela bunda magra, não gerou qualquer comoção em mim. Ora bolas, doze mil pessoas carregaram a tocha olímpica em meses de peregrinação, mas só Cisão teve a iniciativa de baixar as calças, vestir um biquíni com estampa de oncinha e externar publicamente as aspirações políticas que compartilhamos. Foi um gesto viril e ousado. Foi pura catarse. Conseguimos, através de seu ato, expurgar de forma mediada o desejo sufocado de manifestar nosso ímpeto, trazendo um alívio, ainda que momentâneo, à cólica que tanto nos oprime. Continuo achando seu gesto louvável e digno de elogio.

O mesmo se aplica às inúmeras pessoas que compraram seus ingressos para protestar nos estádios e arenas em que ocorrem as competições. Para não perder a metáfora de vista, podemos pensar que são movimentos peristálticos que certamente incomodam o excremento, tanto que foram proibidos, censurados e punidos até ontem. E, diante da proibição, muitos buscaram formas criativas de driblar a censura, resgatando um expediente que ficou bem conhecido nas canções de protesto ao longo do regime militar no Brasil (1964-1985). Foram vozes isoladas, mas que de certa maneira exibiam a crise política em um espaço de visibilidade nacional e internacional.

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Tudo isso é catártico, sem dúvida. O drama, contudo, é que a catarse nos conduz a uma conclusão trágica: somos levados a perceber que não dispomos de qualquer meio efetivo para aliviar permanentemente o problema que nos aflige. Em outras palavras, a catarse não é a panacéia, ou seja, não é o remédio para alívio de todos os males, não é o purgante ou vomitório que eliminaria o mal, tampouco a profilaxia para os distúrbios vindouros que se anunciam: é apenas aquele medicamento que satisfaz a exigência imediata, trazendo alívio momentâneo. O governo golpista possui o apoio da grande imprensa, chefia as Forças Armadas, tem o apoio do empresariado e nossa apatia e desarticulação. Nós temos uma folha de papel A4 e uma caneta. Por isso, a catarse combate o sintoma, mas não a doença: o excremento continua lá e somos obrigados a conviver com ele para além da ilusão. E, chega uma hora, por mais engraçado e criativo que seja o protesto, que ele já não produz o efeito desejado. É apenas um papel. Nosso organismo se habitua à droga e nem a bunda do Cisão parece tão ajeitadinha. Ainda mais dramático é reconhecer que muitos se percebem ativos e altivos por elevar a folha com alguns dizeres, julgando ter cumprido seu papel de cidadão revolucionário e ingovernável. No fundo, no fundo, não causaram estrago algum. Diz-se que Hitler assistiu O Grande Ditador e chegou a rir da paródia de Chaplin. A película é ótima, mas não causou qualquer efeito prático no líder nazista, que caiu por ações bem mais eficazes e contundentes.

Entre a cruz e a caldeirinha, não penso que a catarse seja desnecessária ou um problema, mas ela deve ficar no seu lugar de convite para a ação e mobilização políticas, e não ser pensada como a ação e mobilização políticas em si. Assim como não há como tratar um câncer no cérebro com aspirina, não se pode confiar na expressão de nossas vontades com sua correspondente realização. Do contrário, ficaremos indefinidamente gritando “Fora, Temer!” e em momento algum conseguiremos dar descarga.

Por que o bumbum do Cisão é quase nada? Uma crítica conceitual aos culturetes

Há poucos dias, meu camarada Alexandre Moraes publicou neste site um ensaio sobre o ato de protesto protagonizado por Tarcísio Carlos Rodrigues Gomes, o “Cisão”, na ocasião da passagem da controversa tocha olímpica pela região portuária do Rio de Janeiro. Como não poderia deixar de ser, na sua reflexão, Alexandre destaca a simbologia do protesto: um negão lindo, vestindo um biquíni de oncinha cavado e com um “fora Temer” escrito na bunda. O “fora Temer” está na boca de todo brasileiro minimamente comprometido com a democracia; em Cisão, o “Fora Temer” está na garganta e na bunda, e isso foi maravilhoso. Tal como Alexandre, e mais meia dúzia de iguais, também gostei da ousadia/alegria do Cisão. Mas e agora? Cisão mostrou a bunda, nós ficamos contentes e, talvez, até Temer tenha dado umas boas risadas com a cena. O que fazemos com isso?

Ao mostrar a bunda com o “Fora Temer”, Cisão mobilizou o próprio corpo como arma de protesto, sendo silenciado, ou melhor, des-desnudado pelas forças policiais ali presentes. Certamente, o “fora temer” nas nádegas de Cisão vai se tornar folclore no Rio de Janeiro, vai inspirar fantasias de carnaval. Porém, o evento não desperta, ao menos em primeiro plano, uma discussão pública sobre as dimensões materiais e objetivas do nosso cenário político (privatizações, reforma da previdência, refluxo de políticas sociais), mas sim um frenesi simbólico e material, no sentido foucaultiano do termo, como comento a seguir. A bunda do Cisão aglutina pouca gente. Na atual circunstância, a bunda do Cisão é quase nada.

Enquanto nós aplaudimos o “Fora Temer” na bunda do Cisão, o golpe continua tramitando no Senado e se as expectativas dos golpistas se confirmarem, ainda nesse mês de agosto, a Presidenta Dilma será definitivamente afastada. Por que o projeto político que mais amparou os setores mais pobres da população caiu assim, sem resistência? Por que dar um golpe de Estado no Brasil, em pleno século XXI, foi tão fácil? Ao menos para mim, são esses os problemas que, mais do que o bumbum rebelde do Cisão,  precisam chamar a atenção de todos aqueles que estão interessados em pensar o Brasil e fazer desse país um lugar um pouco melhor. Neste ensaio, meu objetivo é apresentar uma possibilidade de resposta para essas questões e, nesse exercício de reflexão, o bumbum do Cisão é protagonista (adoro essa palavra), na medida em que simboliza um tipo de militância política que precisa ser criticada.

Os números

Primeiro, apresento alguns números, até para sustentar a minha proposição inicial de que os governos dos Partidos dos Trabalhadores foram os que mais ampararam os setores mais pobres da população brasileira. Para isso, organizei uma pequena tabela, onde mostro as métricas que acredito serem fundamentais para essa discussão: incidência da mortalidade infantil, taxa de extrema pobreza e gastos públicos com educação e saúde.

Métricas Situação antes de 2003 Situação depois de 2003
Mortalidade infantil 25,3 em 1000 nascidos vivos 12,9 em 1000 nascidos vivos
Taxa de extrema pobreza 15% 5,2%
Gastos públicos com educação e saúde, respectivamente. 28 bilhões/17 bilhões (dados específicos para o ano de 2002) 106 bilhões/94 bilhões

Fontes:  http://www.dpf.gov.br/agencia/estatisticas;  http://www.washingtonpost.com; OMS, Unicef, Banco Mundial e ONU; www.ipeadata.gov.br; (consulta feita entre 06 e 08 de agosto de 2016).

Sei bem que números podem ser tratados nas mais diversas chaves interpretativas e que geralmente dizem o que o analista quer. Não nego que os governos anteriores aos governos comandados pelo Partido dos Trabalhadores colaboraram para os relevantes resultados sociais que foram consolidados a partir de 2003. No entanto, é claro, ao menos para mim, que mais do que qualquer outro projeto político que já governou o Brasil, o Partido dos Trabalhadores demonstrou vontade política para atacar, ou ao menos atenuar, como sustentam os críticos responsáveis, as mazelas sociais que afetavam os setores mais pobres da população.  Frente aos dados, o problema que apresentei no início deste ensaio se torna ainda mais incômodo: por que as pessoas que foram beneficiadas não ocuparam as ruas para defender o governo que estava sendo golpeado?

A minha hipótese é que os governos do Partido dos Trabalhadores cometeram um erro capital; esse erro, ao contrário do que dizem alguns (os críticos irresponsáveis) não está nas alianças com as elites patrimonialistas, na medida em que a representatividade desses grupos no poder legislativo é uma realidade incontornável, ao menos por enquanto. Por isso, precisamos urgentemente politizar o voto parlamentar, pois é na dimensão paroquial desse tipo de voto que se fundamenta o poder do patrimonialismo. Enquanto não formos capazes de consolidar essa discussão, qualquer governo terá que conversar as forças mais reacionárias, a não ser que queiramos pegar em armas. Eu não quero.

O erro capital do Partido dos Trabalhadores é de natureza político/pedagógica: os governos trabalhistas não se preocuparam em fazer uma discussão pública baseada no velho e bom conceito de “classe social”, não mostraram que política pública de amparo à pobreza não cai do céu, e que é resultado de disputas, nas quais, muitas vezes, meios escusos precisam ser mobilizados. Não houve a construção da narrativa do “nós” contra “eles”, o que somente é possível na perspectiva da luta de classes. Por isso, na eminência do golpe, os pobres não ocuparam as ruas, pois eles não se viram como parte interessada naquelas disputas. Para os mais pobres, o que estava acontecendo era, outra vez, os conflitos entre as elites; de um lado, os patrões e do outro, uma classe média letrada organizada em movimentos sociais. Os mais pobres não escolheram um lado e, por isso, nós perdemos. Não se trada de apatia, mas sim de um desinteresse movido por falta de identificação. Na minha avaliação, grande objetivo no cenário pós-golpe é, justamente, reconstruir uma agenda política capaz de produzir essa identificação; estou muito convencido de que apenas dentro do horizonte teórico da classe social isso pode ser feito. O problema é que, no Brasil e no mundo, já há algum tempo, as esquerdas, cada vez mais, se orientam por categorias mais preocupadas com as especificidades do que com as generalidades. Temos aí uma difícil discussão teórica, que precisa ser enfrentada.

A esquerda sem classe: uma genealogia conceitual do culturetismo

Cisão, o do bumbum, é uma figura relativamente conhecida no cenário cultural do Rio de Janeiro, principalmente entre os representantes de um tipo de militância político/cultural que, ao menos por aqui, vem ganhando cada vez mais força. Em momentos de mau humor, costumo chamar essa militância de “esquerdinha cultutere”, mas reconheço que, na maioria das vezes, peso a mão na crítica. Certamente, faço isso também neste texto. Por isso, desde já, peço desculpas se tiver por aí algum  leitor “culturete”. Não se aborreça, não vale a pena; exercite o deboísmo que lhe é peculiar.

Os “esquerdinhas cultureres”, geralmente, são jovens animados (alguns nem tão jovens assim), usam roupas coloridas, têm cabelos descolados e curtem poesia (muitas vezes de qualidade questionável) e artes circenses (principalmente pernas de pau e fitas); eles também gostam dos tambores de olokum. Aqui no Rio de Janeiro, os esquerdinhas culturetes podem ser encontrados facilmente na Praça São Salvador, localizada ali, na Zona Sul, entre Flamengo e Laranjeiras. Para essa moçada animada, a festa tem conteúdo político, sendo uma estratégia de rebelião, ainda que às vezes, principalmente depois da meia noite, isso parece ser esquecido e a festa se torna um fim em si. O sociólogo francês Michel Maffesoli, especialmente no livro “Nascimento das Tribos”, mostra muito bem como a festa e o deboche têm alto potencial de crítica política, algo que foi destacado, também, por José Murilo de Carvalho, em seu estudo sobre os primeiros anos da República brasileira. O problema é quando a festa e o deboche se transformam na única agenda, não restando espaço para a ação institucional; não há solução para os dilemas sociais fora da institucionalidade. Esse é um grave equívoco dos culturetezinhos, mas não é o pior, e nem o mais perigoso.

Outra característica marcante dos “esquerdinhas culturetes” é a organização em coletivos: mulheres (que por sua vez se subdividem na prática da militância em mulheres negras, brancas, trans, só pra usar as categorias que conheço), negros, gays e etc e tal, cada qual também sendo atravessado por cortes e rivalidades internas. Todos esses grupos afirmam as suas particularidades, querendo ser representados nas suas especificidades. O que os aproxima é, tão somente, a condição de minoria, sendo que praticamente inexistem estratégias gerais capazes de converter as suas demandas em políticas públicas efetivas. Isso acontece, justamente, porque o planejamento de políticas públicas demanda representatividade institucional e nenhum desses grupos tem potencial numérico para eleger a sua própria bancada de representantes. Essa representatividade seria possível, mas somente se eles estivessem dispostos a compor com lideranças políticas capazes de aglutinar todos esses interesses, mas para isso seria necessário abrir mão de aspectos pontuais de suas pautas específicas. Não acho que isso vá acontecer, na medida em que esse tipo de militância opera na base do “tudo ou nada”. Por enquanto, eles ainda estão no nada, e o horizonte pós-golpe não é dos mais animadores.

Por mais criativos que sejam, os culturetes não se inventaram assim, do nada, como costumam fazer com suas poesias de protesto, sempre tão originais. Eles mesmos são o resultado de acaloradas discussões teóricas que vieram à luz no final dos anos 1960, e que, dentro e fora do campo conceitual marxista, criticaram a velha noção de classe social, inspirando assim um novo tipo de militância política. Autores como Michel Foucault (1926-1984), Claude Lefort (1924-2010) apontaram para a positividade dos micropoderes, destacando a sua capacidade de controlar corpos, gestos e narrativas. Essas reflexões, ao mesmo tempo, alimentaram e foram alimentadas por um tipo de ação política libertária diferente daquela que caracterizou a militância tradicional, que operava com os conceitos marxistas e que foi responsável, entre outras coisas, pelas pressões políticas que resultaram, ali por volta das décadas de 1930 e 1940, na formação do Estado de Bem-Estar Social, hoje sob ataque, no mundo inteiro. O próprio Michel Foucault, já em 1975, deixa claro o seu propósito de se afastar da semântica marxista, propondo outra forma de pensar o modus operandi dos poderes.

“Não sou dos que tentam delimitar os efeitos do poder ao nível da ideologia. Eu me pergunto se, antes de colocar a questão da ideologia, não seria mais materialista estudar a questão do corpo, dos efeitos do poder sobre ele.”

Como fica claro na citação, Foucault não está negando a análise materialista, mas tratando-a em outra chave interpretativa diferente da marxista. Enquanto os autores vinculados ao materialismo histórico mais ortodoxo (incluindo aqui os próprios Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895)) estavam preocupados com as questões objetivas e materiais da vida social, com os procedimentos que as pessoas adotam, na sua vida prática, para sobreviver, Foucault e os seus seguidores problematizam a ação dos poderes sobre os corpos físicos, o que acontece não apenas na fábrica, na dinâmica da relação social entre patrão e empregado, mas na cadeia, no hospital e na escola. Apresentar a formulação nesses termos, de alguma forma, sugere que todos nós estamos submetidos a regimes de poderes microfísicos e que a situação de vulnerabilidade material não é a única opressão possível, não sendo, talvez, nem a principal.

Até mesmo dentro da tradição marxista houve, nesse mesmo período, um movimento de renovação conceitual, que se traduziu, também, em novas práticas políticas. O fundamental da análise que estou propondo é exatamente esse: as discussões teóricas não se esgotam em si, não ficam apenas nas notas de rodapé dos textos acadêmicos, mas, de alguma forma, orientam práticas políticas, pois elas mesmas são a formulação letrada de valores que circulam sob a forma de “energia social”, pra utilizar um termo caro ao estudioso inglês Stephen Greenblatt. Nesse sentido, o teórico, o formulador do conceito, é menos um “inventor” do que alguém capaz de perceber os códigos compartilhados coletivamente e elaborá-los em texto. Esses mesmos códigos estão aí, prefigurando a forma como nos relacionamos com o mundo. Pensar a política, ao menos para mim, significa problematizar esses códigos. Bom, retomando o fio da meada.

No primeiro volume do livro “História do Marxismo”, Eric Hobsbawm (1917-2012), um dos intelectuais marxistas mais ativos na transição do século XX para o século XXI, demonstra como o pensamento marxista se transformou após a década de 1970, o que provocou mudanças, também, no comportamento político das esquerdas ocidentais. Diz o autor que

“a prática política marxista não mais se conforma, ou tende a não se conformar, ao modelo bolchevique. Por isto, caiu o argumento pelo qual a teoria marxiana implica necessariamente o leninismo e só o leninismo (ou uma outra escola qualquer que pretenda representar a ortodoxia marxista)”.

Temos, portanto, ainda de acordo com as considerações de Hobsbawm, “o abandono, seguindo as bases gramscianas, da ortodoxia, e a adaptação do vocabulário marxista às transformações do mundo contemporâneo”, que o autor chama de “capitalismo tardio”.

O próprio conceito de “classe social”, certamente um dos principais aportes teóricos do materialismo histórico, foi profundamente transformado nessa renovação que costumamos chamar de “marxismo cultural” e que foi protagonizada por autores como Edward Thompson (1924-1933) e o próprio Eric Hobsbawm. Para esses autores, não existe a “classe em si”, como dado que transcende as experiências individuais, apenas a classe para si, como o produto da construção de uma identidade social ativa e das representações individuais. Em Thompson, por exemplo, a contradição entre as forças produtivas e as relações de produção perde o caráter de lei geral e se transforma em uma variável histórica, o que representa uma sensível mudança em relação ao marxismo mais ortodoxo.

O que estou querendo dizer é que esses debates conceituais ensejaram (e foram ensejados por) uma espécie de militância política mais preocupada com o controle dos corpos e dos discursos do que com as condições objetivas e materiais da vida social. Não há nenhum problema com isso, muito pelo contrário, na medida em que essas formulações teóricas inspiraram uma importante diversificação analítica na grande área das ciências humanas, propondo novos problemas e revisitando antigas teses.  Tudo andava relativamente bem, até que, do final dos anos 1980 para cá, na esteira do fim da Guerra Fria, o Estado de Bem-Estar Social passou a ser alvo de ataques cada vez mais violentos. A defesa desse tipo de organização institucional (que se não é a ideal é, sem dúvida, a melhor que a modernidade já viu nascer) passa, obrigatoriamente, pela pressão social e política, o que somente será eficaz diante de uma agenda capaz de unificar as forças sociais progressistas. Como faremos isso? Como representar todas as especificidades das demandas das minorias em um projeto político forte o suficiente para disputar as instituições e salvar o assistencialismo social dos ataques do capital especulativo? Aqui, não precisamos inovar (quase nunca precisamos), pois a própria tradição modernista nos oferece a resposta.

O velho e bom conceito de classe social

“Na formação de uma classe carregada de cadeias radicais, de uma classe da sociedade burguesa, de um estamento que implica a dissolução de todos os estamentos, de uma esfera a quem seus sofrimentos universais dão um caráter universal e que não pode reivindicar para si nenhum título especial”.

É com essas palavras que Marx, no texto “Crítica da Filosofia do Direito de Hegel”, publicado pela primeira vez em 1844, define a classe trabalhadora. Como não poderia deixar de ser, Marx, um herdeiro das filosofias da história do século XVIII, está mais preocupado com as generalidades do que com as especificidades, mais com o universal do que com o particular. Para ele, o que caracteriza a classe trabalhadora são os seus “sofrimentos universais”, que se manifestam na experiência da vulnerabilidade material. Em outras palavras: o que torna o sujeito um operário é a não propriedade sobre a sua força de trabalho, sobre o seu tempo, sobre a sua própria existência. Para o operário, a sua sobrevivência não está garantida previamente. Em Marx, opressão e sofrimento significam falta de meios básicos para uma vida digna.  Pessoalmente, estou muito convencido de que ele ainda está certo.

No livro “A Ideologia Alemã”, publicado pela primeira vez somente em 1932, Marx, em parceria com Engels, associa a identidade de classe à antítese do conflito com outra classe. Dizem os autores que

“os diferentes indivíduos só formam uma classe quando se veem obrigados a travar uma luta comum contra outra classe, pois, de outro modo, eles mesmo se enfrentam uns com os outros, hostilmente, no plano da concorrência”.

Escrevendo mais de cem anos antes de Michel Foucault, os autores dos textos de fundação do Materialismo Histórico afirmam que a identidade de classe é a premissa para a ação coletiva, que, por sua vez, é a única forma de abalar a hegemonia burguesa. Daí vem a famosa máxima “trabalhadores do mundo, uni-vos”, certamente as palavras mais conhecidas do “Manifesto Comunista”, de 1848.

O dilema que se coloca para a minha geração (tenho 30 anos), que foi formada na crise do materialismo histórico, é exatamente como produzir essa unidade. É possível uma ação coletiva capaz de contrapor o capital especulativo, cada vez mais forte? Sim, mas apenas se pautarmos a nossa atuação política por outros referenciais teóricos que não aqueles que inspiram os culturetes. Para isso, é fundamental que as pautas sejam hierarquizadas, a começar pela definição da vulnerabilidade material como a principal experiência de opressão, sendo todas as outras secundárias, o que não quer dizer que não tenham importância.

É claro que as outras pautas, como violência de gênero, racismo e violência sexual são fundamentais, sendo problemas ainda mais graves quando a vítima vive em situação de vulnerabilidade material, quando é pobre, para ser bem claro. Priorizar a vulnerabilidade material como pauta da ação política significa disputar as instituições, visando proteger aqueles que mais sofrem na atual conjuntura, quando, como já comentei acima, o Estado de Bem-Estar social está sendo alvo de violentos ataques. A mulher e o gay brancos e de classe média, por mais que também estejam em posição vulnerável pelas suas condições de gênero, têm a capacidade social e semântica de mobilizar os instrumentos jurídicos já disponíveis em sua própria defesa. O mesmo não acontece com os pobres, que estão sempre vulneráveis, até mesmo quando são homens e heterossexuais.

Nesse sentido, propor uma solidariedade universal baseada nas condições de gênero (o que no vocabulário feminista é chamado de “sororidade”) significa supor que a menina da favela está mais próxima da patroa da sua mãe do que do seu vizinho, que mora no barraco ao lado. Tratar a experiência social nessa perspectiva significa inverter a realidade, pois sugere que o homem pobre é o opressor e que a mulher rica é a oprimida. É certo que, circunstancialmente, isso pode fazer algum sentido, quando, por exemplo, o guardador de carros aborda a motorista mulher de maneira mais incisiva do que costuma fazer com um motorista homem. Porém, estruturalmente falando, em uma sociedade capitalista, as hierarquias sociais são fundadas no controle dos meios de reprodução material da vida, o que torna o princípio da sororidade uma formulação potencialmente ideológica, no sentido marxista do termo: um simulacro que mascara a verdadeira contradição.

Sei bem que ao apresentar a reflexão nestes termos, não estou dizendo nenhuma novidade. Muito pelo contrário. Esta discussão já é uma senhora com, pelo menos, 160 anos. Também sei que do século XIX pra cá, o mundo se transformou bastante, o que justifica as criticas (umas melhores que as outras) que foram direcionadas ao vocabulário do materialismo histórico. Porém, nessa segunda década do século XXI, a realidade, novamente, se impõe a nós (ela costuma fazer isso ora ou outra). O capital especulativo exige que os Estados ocidentais equilibrem suas contas, o que envolve, entre outras coisas, o corte de direitos sociais, atingindo, obviamente, os mais pobres, aqueles que vivem em condições de vulnerabilidade material. Pra contrapor esses ataques é necessária a ação coletiva, o que somente pode ser feito a partir de uma agenda universal. Essa agenda universal não é possível fora do velho conceito de “classe social”. É impossível representar integralmente as especificidades de todas as minorias.

Nesses tempos difíceis, a crítica teórico/política aos culturetes é um ato revolucionário.

Cisão merece nosso respeito

O país que foi escolhido em 2008 para sediar os Jogos não é o Brasil de 2016. Na ocasião, nossa economia estava forte, tínhamos pleno emprego, a moeda estava valorizada, Lula esbanjava popularidade e a democracia estava fortalecida. Houve muita controvérsia na época, é verdade, mas é inegável que o clima era diferente. Atualmente, nada vai bem, a começar pelo presidente conspirador e ilegítimo que assacou o poder. Antes, para muitos, os Jogos eram motivo de orgulho e vaidade; hoje, se tornaram objeto de repúdio para boa parte das brasileiras e dos brasileiros. Era esperado, e até desejável, que um dos seus principais símbolos se tornasse alvo da fúria popular.

A tocha olímpica começou seu itinerário em Brasília no dia 03 de maio. De lá pra cá, passou por centenas de cidades e foi conduzida por diversas pessoas. Isso não aconteceu sem atropelos e cenas pitorescas. Muitos caíram no chão. Um dos condutores foi atropelado pelo carro da polícia que fazia a escolta. Em outra ocasião, uma moto, também da polícia, invadiu o cordão de isolamento e atropelou um colega de farda. Os esforços para apagar o fogo também se avolumaram. Com extintores de incêndio ou baldes d’água, diversos manifestantes tentaram e alguns até conseguiram fazê-lo. No entanto, ao longo de todo esse tempo, nenhum condutor, nenhuma pessoa, nenhum espírito iluminado foi tão genial quanto o músico Tarcísio Carlos Rodrigues Gomes, também conhecido como “Cisão”. O que Cisão fez merece nosso respeito e precisa ser lembrado. Daqui a alguns anos, podemos esquecer quase tudo que aconteceu nessa Olimpíada fatídica, menos de Cisão.

No dia 04 de agosto de 2016, na Rua do Livramento, situada na Zona Portuária do Rio de Janeiro, Cisão protagonizou a manifestação mais insólita e admirável de todo esse percurso. Ele tinha sido convidado a carregar a tocha olímpica. De repente, não mais que de repente, aproveitando a visibilidade do momento, decidiu tirar a roupa, exibir a parte de baixo de um biquíni de oncinha e mostrar ao mundo, grafado em sua bunda magra, os dizeres “Fora Temer”. A multidão entrou em frenesi. Obviamente, nosso herói foi alvo da força repressiva do Estado que tentou, em vão, ocultar seu protesto inesperado. Cisão, contudo, correu alegre e faceiro, entoando o grito cujos dizeres estavam estampados nas nádegas. E assim, num átimo, a tocha olímpica deixou de ser centro das atenções. A bunda de Cisão roubou a cena. Seu rabo produziu uma atração quase gravitacional nas câmeras: todas as lentes convergiram o foco para o mesmo lugar e registraram aqueles dizeres emoldurados pela estampa de onça-pintada, um dos símbolos de nossa fauna pantaneira.

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Muitos ainda não atinaram para a grandeza do gesto. Percebam: centenas de pessoas foram convidadas a correr com a tocha olímpica. É possível que algumas delas tenham recusado, indignadas com os rumos de nossa democracia e com a cortina de fumaça que os Jogos tentam lançar sobre o que acontece no país. A maioria, porém, deve ter aceito. Alguns foram tomados pelo orgulho patriótico, pelo sentimento cívico de representar sua cidade e seu país. Outros se sentiram envolvidos pelo ideal do olimpismo, pela lógica solidária de amizade entre os povos que Pierre de Coubertin tanto propalava quando da fundação dos Jogos Olímpicos da modernidade. Muitos não sentiram nada disso e buscavam apenas aparecer e se sentirem especiais.

Cisão, não. Cisão tinha outras preocupações.

Cisão se despiu, literalmente, de toda moralidade, ambição e busca por glória pessoal. Ele poderia ter recusado, mas resolveu ter uma atitude grandiosa. Cisão estava pouco se fodendo para o orgulho cívico e para o espírito olímpico. Cisão só queria soltar o grito contido na garganta de todos aqueles que estão se insurgindo contra as atitudes autoritárias que vem de Brasília e que desrespeitam a decisão soberana do voto popular. Cisão sabia, contudo, que em meio à algazarra, sua voz não seria ouvida. As músicas, os gritos da turba e a confusão generalizada fariam sua manifestação ser inofensiva e ignorada. Por isso, o que estava em sua boca foi parar em sua bunda, e duas palavras se tornaram mais eloquentes que um grito bem entoado. Em suas nádegas estava o nome de um presidente ilegítimo que goza de apenas 8% de respaldo popular. À esquerda, “Fora”; à direita, “Temer”. Com seu jeito malemolente, com seu comportamento rebelde e vadio, Cisão fez de sua bunda a vitrine de nossa crise política e levou a mensagem a todos os cantos e canteiros desse mundão. Cisão despertou a curiosidade de pessoas dos quatro cantos do planeta.

Tudo está caótico. Vivemos amargurados. Detestamos a farra das construtoras. Permanecemos ansiosos e atentos às eleições municipais que se avizinham. Perdemos o sono com o Golpe de Estado e com todos os golpes que se acumulam dentro do Golpe. Sentimos um amálgama de desprezo e vergonha da sanha populista de Eduardo Paes. Lamentamos a absoluta ausência do tão alardeado “legado olímpico”. Sofremos com a poluição da Baía de Guanabara, com os preços abusivos, com as desapropriações autoritárias. Aturamos o ressentimento de uma direta odiosa que pauta, nos termos que ela própria define, os grandes debates nacionais. Repudiamos a imprensa panfletária que dá sustentação ao governo golpista e aos interesses empresariais que representa. Mas tudo isso, por um momento, cai por terra quando Cisão tira a roupa e instala o carnaval em pleno mês de agosto. Cisão nos obrigou a recordar irreverência sacana do carioca, aquela falta de vergonha estratégica e indolente que é nossa marca. Seu protesto tem um nítido verniz antropológico: ele é identitário, relacional e histórico.

Os Jogos Olímpicos já tinham chegado ao Rio de Janeiro, mas faltava o Rio de Janeiro chegar aos Jogos. Tarcísio Carlos Rodrigues Gomes estabeleceu uma rotura. Ele teve não apenas teve uma ideia genial, mas foi capaz de pô-la em prática, com coragem e determinação. Cisão, naquele momento, representou o Rio de Janeiro mais do que qualquer outro carioca. O Rio chegou às Olimpíadas. O mundo voltou a girar.